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Artigo: A Importância do Suporte Psicológico ao Paciente Oncológico

 

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Nina Melo,  pesquisadora do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer
A Organização Mundial da Saúde (OMS) propôs o debate integral sobre depressão, um transtorno que pode afetar pessoas de qualquer idade e em qualquer etapa da vida. Essa iniciativa reforça que existem formas de prevenir e tratar, considerando que ela pode levar a graves consequências. Mas, e o que isso tem a ver com câncer?

Indivíduos com câncer, comparados com a população em geral, têm risco aumentado para apresentar sintomas e transtornos depressivos persistentes. Sabe-se que o paciente oncológico tem o equilíbrio mental desafiado nesta fase, tanto no momento do diagnóstico, quanto no pré e pós tratamento. Por se tratar de um momento que vem acompanhado de uma série de incertezas, dúvidas, desafios (físicos e mentais), sem saber o que vem pela frente e, mesmo o medo ou a proximidade da morte, é comum que estes pacientes apresentem depressão.
Assumimos, no Observatório de Oncologia do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer, o desafio de relacionar os casos de câncer com o desenvolvimento da depressão e mostrar a importância de um acompanhamento psicológico e, quando necessário, psiquiátrico a esses pacientes, já que a depressão é o transtorno mais comum em pacientes com câncer, com prevalências variando de 22% a 29% e, essa variação, além de fatores como estágio clínico, dor e sítio do tumor, está fortemente associada a existência do suporte emocional. Além disso, a depressão impacta no sucesso do tratamento, pois é associada a um pior prognóstico e aumento da mortalidade pelo câncer.

Pacientes com câncer de mama têm de 10% a 25% de chance de apresentar depressão, tendo o seu índice aumentado no primeiro ano após o diagnóstico, principalmente em pacientes jovens. Da mesma forma, os primeiros estudos relacionando câncer de pâncreas com depressão indicavam taxas elevadas em torno de 33% a 50%. Porém, um estudo mais recente indicou que a chance de desenvolver depressão para esse tipo de câncer caiu para 21%, o que ainda é uma taxa bastante significativa.

Já para câncer de cabeça e pescoço, a prevalência de sintomas depressivos está em torno de 6% a 15%. Tumores que causam algum tipo de mutilação física estão entre os que têm a taxa mais elevada para o aparecimento de depressão.

No entanto, a falta de registro de dados do atendimento psicoterapêutico nos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS), faz com que a análise da relação câncer x depressão fique limitada. Contudo, sabemos que a depressão, por sua vez, eleva o aumento do uso dos serviços de saúde mental, em geral, de uma população. Os dados que temos são que, por mais que a incidência de casos de câncer no Brasil tenha aumentado, o número de consultas psicoterapêuticas vem caindo e isso é um fator de muita preocupação, já que a depressão interfere negativamente com a adesão ao tratamento e qualidade de vida dos pacientes oncológicos, o que pode contribuir diretamente para o aumento da mortalidade do câncer

“Receber o diagnóstico de um câncer não é fácil e gera diferentes sentimentos e sensações no indivíduo, e até mesmo a depressão, um dos transtornos mentais mais prevalentes nos dias de hoje. Além disso, o fato de não termos dados a respeito do tratamento psiquiátrico dos pacientes com depressão, indica que provavelmente este problema não vem sendo abordado da forma que seria necessário. Desta forma, não há como saber com exatidão o número de pacientes que recebe o diagnóstico, que tem o tratamento adequado e quanto isto interfere na recuperação e adesão. Isso é um grande problema, que deve ser revisto pelos responsáveis”, diz Dr. Rafael Brandes Lourenço, psiquiatra do Hospital Mário Covas.

De 2008 a 2016: O INCA estimou um aumento de 27% nos novos casos de câncer no Brasil, enquanto os atendimentos de psicoterapia individual caíram em 29% e os atendimentos de psicoterapia em grupo caíram 48%.

Por tudo isso, o Movimento Todos Juntos Contra o Câncer alerta para que haja melhora no registro desses dados por parte dos serviços públicos de saúde e que a cobertura dos atendimentos psicoterapêuticos da população brasileira, bem como os pacientes com câncer, seja aumentada.

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Sobre Jaqueline Falcão

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Jornalista por paixão e formação, Jaqueline Falcão escreve sobre saúde desde 2001. Começou no Diário Popular como repórter, foi editora de Saúde do Diário de São Paulo. Depois, foi transferida para o jornal O Globo, sucursal São Paulo, onde permaneceu por 7 anos. A ideia de criar o "Página da Saúde", voltado para falar de tratamentos, descobertas da medicina, qualidade de vida, foi a vontade de ter mais liberdade para falar saúde em seus diversos aspectos para pessoas que cada vez mais buscam informação de credibilidade. E para isso está sempre em coletivas, seminários e congressos médicos para trazer as novidades. Na Europa e Estados Unidos, participou de coberturas em congressos e seminários sobre os temas tabagismo, câncer, esclerose múltipla, pesquisa clínica, saúde masculina, saúde feminina, depressão, vacinas e patentes. Entre os cursos e workshops na área de jornalismo de saúde, destaque para ressuscitação cardiopulmonar, infarto, câncer de pele, tabagismo, pesquisas clínicas no Brasil e no Mundo, lançamentos de novas classes de medicamentos, realizados em instituições como Hospital Israelita Albert Einstein, Hospital Sírio-Libanês, Hospital das Clínicas, Universidade de São Paulo, Unicamp, Tufts University (Boston - EUA), UC San Diego, Inter American Press Association (IAPA) e Massachusetts Institute of Technology (MIT).

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